sábado, 4 de abril de 2015

Policial salva-vida, após a vida

É longa a fila de espera aguardando transplante. Doar é um ato de amor




O Rio de Janeiro vive uma guerra urbana. A Polícia Militar cumpre seu dever de servir e proteger seus cidadãos. Porém, condutas inadequadas de uma mínima parte de sua tropa de 50 mil homens e mulheres maculam todo o trabalho dessa corporação. Aconteceu, acontece, mas acontecerá cada vez menos, pois tem sido intenso o trabalho de treinamento e ensino de uma nova doutrina. Mudança de cultura é um trabalho de longo prazo. Essa é missão e visão do atual comando.

A imensa maioria dos policiais coloca sua vida em jogo, para defender as nossas. Seu trabalho não é matar, mas também não é morrer. Não pode passar despercebido o número desproporcional de policiais baleados. Marginais caçam policiais, todos os dias. “Guerra sem trégua”, lamenta um veterano.

Há poucos dias, fui avaliar mais um caso que ilustra essa guerra.

Uma patrulha da PM foi atender a um chamado, na área da UPP do Alemão, para recuperar um carro furtado abandonado, uma missão habitualmente não muito complexa. Porém, tratava-se de uma armadilha. Em mais um ataque covarde, mais um policial foi baleado na cabeça.

Resgatado, recebeu o primeiro atendimento na UPA próxima, onde foi entubado e, em minutos, removido para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, para ser operado. A hemorragia cerebral era tanta, que o controle do sangramento foi longe do ideal. O sistema público funcionou. Não faltou material no hospital, mas sobrou violência na rua.

Apesar de décadas de experiência e cicatrizes no meu coração, as cenas no CTI foram comoventes. Ligado a aparelhos e monitores, um jovem da idade de meu filho estava em coma. Irmã e mãe, ao seu lado, seguravam suas gélidas mãos. Outros parentes se revezavam noite e dia. O plantonista do CTI havia liberado as visitas, usando o protocolo do humanismo escrito nesse verdadeiro coração de médico. As chances de sobrevida do rapaz eram pequenas, mas o tratamento foi o melhor possível.

Foram dias nesse combate pela vida. Médicos, enfermeiros e fisioterapeutas ombro a ombro, companheiros doando sangue, a família orando. Após quatro dias, seu cérebro deixou de funcionar - morte cerebral -, mas seu coração, fígado e rins estavam perfeitos. Seus olhos nada viam, porém suas córneas continuavam transparentes.

O paciente virou um potencial doador de órgãos.

Esperançosa do futuro daquele trabalhador criado na adversidade das comunidades, agora sua família deveria decidir pela doação de seus órgãos, porque, pela legislação, na ausência de consentimento prévio, a família é que deve autorizá-la. Jovens saem para trabalhar não imaginando morrer.

É longa a fila de espera aguardando transplante. Doar é um ato de amor.

A generosidade da família do policial Anderson F. Silva, para mim um verdadeiro campeão, permitiu que seus órgãos salvassem três vidas e devolvessem a visão de outras duas pessoas.

Deus abençoe a família enlutada desse policial, que continuou salvando vidas após a vida.

 
 

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